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O livro da minha vida, por Sílvia Martins

O Dia em Que Te Esqueci é um romance que descreve os sentimentos de uma mulher que luta para esquecer uma paixão idealizada, enquanto a vida lhe vai apresentando outras formas de amor e de amar. Como podemos esquecer alguém que amamos? Segundo a autora, “esquecer é uma forma de morrer, ninguém quer viver a morte ainda vivo”. Esta carta revela-se uma lição sobre os caminhos que é preciso percorrer para alcançar o verdadeiro amor.
Para mim, este foi “o livro da minha vida” pelo simples fato de me identificar completamente com os erros e acertos ditos no livro. Quando o li, estava a meio de um impasse na minha vida. Ou determinadamente esquecia uma pessoa que era muito importante para mim, ou assumia a situação e lutava para ter esta pessoa ao meu lado.
Sei que não tenho a maturidade necessária para dizer o que é realmente o amor, mas na verdade acho que nós, seres humanos, nunca somos suficientemente maduros para podermos dizer o que é o amor. Ao terminar o livro, consegui resolver-me comigo própria e com a outra pessoa. Baseando-me em todas as passagens descritas pela autora, compreendi que, para alcançar o verdadeiro amor, temos de passar por separações e aproximações, deceções e alegrias e, que no fim de tudo, se o amor valer a pena, esses sentimentos não serão em vão.
O livro é nada mais, nada menos do que uma história pela qual todos nós já passamos ou estamos a passar, podendo ser uma lição de vida porque, por um lado, nos ensina que não vale a pena dizer –“Tenho de te esquecer.” pois, para tal, é necessário querer muito, é preciso desistir de amar e, por outro lado, procurar um novo amor para esquecer um antigo também não é solução, o amor não pode ser forçado, tem de acontecer naturalmente.
Em suma, foram, basicamente estas condicionantes que me fizeram considerar O Dia em Que Te Esqueci o livro mais importante que já li na minha vida.
Quanto à minha decisão…resolvi lutar, porque como a própria autora Margarida Rebelo Pinto refere, “esquecer é uma forma de morrer, ninguém quer viver a morte ainda vivo.”.


Por Sílvia Martins, aluna da Turma 2, do 10ºano de esolaridade

Os livros da minha vida, por Gabriela Pimentel


      Pediram-me “escreve um texto sobre o livro da tua vida” . Resisti. Aconcheguei-me na preguiça de quem, apesar de trabalhar as palavras todos os dias, parece já ter esquecido de como pô-las "bonitas" em texto. Resisti. Também por não gostar muito de me expor, por ser muito “bicho do meu casulo”.
Mas, durante a interrupção letiva de natal, o pedido voltou a ecoar-me na cabeça, naquele remorso que mói de quem sabe que não fez o que devia. Senti-me subitamente impelida para uma página em branco. Não sei se foi o facto de ser natal e de por isso o tempo parecer mais longo, mais repousado, se pela paz reencontrada na família novamente reunida. Sei que todos estes ingredientes me envolveram como que num terno abraço aconchegante. E senti-me duplamente “abraçada” pois ao comprar, um destes dias, o último livro de José Luís Peixoto, intitulado Abraço, constatei ter entre mãos um daqueles livros que se colam à pele, ao coração e aos neurónios, um livro de que apetece falar, escrever. Talvez pelo tom confessional que o percorre ao falar de família, de sentimentos, talvez por nos transportar a tempos de infância e de juventude nos quais nos revemos, talvez, sobretudo, pela forma como o seu autor nos faz entrar no que de mais intimamente nos embala a alma e instiga à vida.
      Esta é uma daquelas leituras que nos deixa marca, que ora nos faz sorrir, ora nos deixa com aquele embargo na garganta, porque, sub-repticiamente, damos por nós a vestir a pele do protagonista, sentindo as suas vivências como nossas.
      Apesar disso, não considero que seja este “o livro da minha vida”, porque prefiro acreditar que muitos outros a preencherão, tal como aconteceu no passado. Felizmente, tive a sorte de, ainda antes de saber ler, me poder apaixonar pelas magníficas gravuras que ilustravam os maravilhosos contos de Andersen e dos irmãos Grimm. Foram elas que me levaram a querer descobrir o sentido das palavras que as acompanhavam.
Hoje, já “entradota”, quando olho para trás, vêem-me à memória  muitos títulos, muitas obras que me apanharam em fases distintas da minha vida, desde as intrépidas aventuras que sempre acabavam bem dos famosos Cinco, à lamechice melada dos romances cor-de-rosa (que ironicamente pertenciam à chamada coleção azul), à intemporal consistência dos clássicos (desde que não fossem  leitura obrigatória), passando pela ironia mordaz do nosso Nobel…  muitas foram as razões que motivaram para a leitura, porém  a melhor será sempre o simples prazer de ler.

Gabriela Pimentel, professora de Português





O livro da minha vida, por Elsa Sousa



O livro da minha vida? Confesso que tive a tentação de quebrar o que me foi proposto e falar sobre vários livros, pois sempre representaram bons momentos de uma deliciosa ausência e de um crescimento pessoal, independentemente do seu género e da idade com que os li. O universo literário torna a escolha de um só livro... impiedosa! Felizmente!!
Escolho a estória de WutheringHeights, de Emily Bronte. Não por ter sido até hoje o livro que mais me impressionou, mas por me ter introduzido numa literatura profunda, apaixonante, capaz de mexer com o meu estado de espírito e, por consequência, a capacidade e o interesse pela leitura futura de outras magníficas obras.
Imaginem o estado de espírito de uma jovem com 17 anos, cuja adolescência se assemelhava, do seu ponto de vista, a um calvário de injustiças e inseguranças e que, pela primeira vez, folheia com perplexidade e crescente curiosidade uma narrativa de cenário obscuro situado na Inglaterra, numa casa sombria, habitada por uma família que abriga um menino cigano, de origem duvidosa, portanto. É ele, Heathcliff, personagem principal, que, tornado adulto, desencadeia o desenrolar tumultuoso de acontecimentos gerados pela obsessão sentimental que nutre por Catherine, uma bela jovem que conhece desde a sua infância como irmã adotiva e de quem se torna inseparável.
A fatalidade nesta estória é inevitável, mas para chegar até ela, o leitor mergulha num universo poderoso do inesperado, de introspeção, de dúvida, paixão, dor e até de constante contradição e inquietude – mais presente no nosso espírito do que gostaríamos de admitir.
Será talvez interessante referir que Emily Bronte, ainda muito jovem,revela, nesta obra, o que os críticos consideram, uma maturidade e uma mestria na escrita invulgares, apenas reconhecidas anos após a sua morte.
Recomendo a sua leitura, pois é, sem dúvida, uma das obras mais marcantes do Romantismo no seu melhor.

Elsa Sousa, Professora de Inglês e Coordenadora do Departamento de Línguas

Os Livros da Minha Vida, por Dulce Andrade, professora de Inglês

A surpresa do convite para a escrita deste texto encontrou-se, face a face, com esta realização: a de que seria perto de impossível escolher O Livro da Minha Vida. Depois de tornar comum esta minha preocupação, que foi prontamente aquietada, organizei as ideias que aqui partilho.


Deixando fora desta conversa a fase do Livro em Branco, e esse sim, plasmou muitos momentos da minha vida, percorri as minhas estantes, e caixotes, e mesa de cabeceira, e quase desanimei, tal foi a quantidade e riqueza de livros que revisitei. Questionei-me: “É possível ter saudades dos livros?” A resposta parece-me óbvia, agora que penso nisso. Se não vejamos: em miúda, quando lia As Aventuras dos Cinco, The Famous Five originalmente, de Enid Blyton, mal podia esperar pela próxima aventura… conhecia cada um dos cinco aventureiros como se fossem meus vizinhos… Esta ligação ainda se mantém! De muitos livros que li, muitos são as personagens às quais regresso, mais cedo ou mais tarde. Vou precisar este afeto com um exemplo que poderá ser complexo, porém, perfeito. Um dos livros que vive muito perto de mim foi escrito pela britânica Virginia Woolf e tem por título Orlando, que constitui, também, o nome da personagem que é, afinal, mais do que uma personagem. A escrita é maravilhosa, tendo como cenário vários séculos, através dos quais Mr. Orlando ou Lady Orlando se movem. Confuso? Verão que é brilhante! Trata-se de um romance que gerou controvérsia no momento de publicação - 1928 - e, se possível, devem lê-lo no original, ou seja, em inglês.

Do autor Haruki Murakami, aprecio, de modo particular, todas as histórias que li, por nelas encontrar uma riqueza imaginária insuperável, a meu ver, em termos de personagens. Podendo parecer contraditório, a voz que se ouve em muitas das suas histórias parece a mesma. Fica o convite para descobrirem como este aparente paradoxo é possível em histórias como Kafka à Beira-Mar, Crónica de um Pássaro de Corda e Em Busca do Carneiro Selvagem.

Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, João Tordo são escritores portugueses que leio com a frequência com que escrevem sobre a condição humana, radiografando as nossas ambições e desilusões com a preocupação de quem escreve para semear, no leitor, a consciência daquilo que somos e podemos vir a ser.

Crónica de uma Morte Anunciada ou Ninguém Escreve ao General são contos de Gabriel Garcia Marquez que, entre contos de outros escritores precedentes da América Latina, marcaram quem eu sou. As personagens de Gabriel Garcia Marquez transportam consigo a complexidade do ser humano, nas suas contradições, nas falhas de comunicação, mais poderosas que o entendimento em si, no abandono, no sacrifício a favor do próximo, merecendo, por isso, a nossa atenção. Se o dia a dia não nos dá a oportunidade de reconhecer, nos outros, o que faz de nós humanos, essa descoberta pode ser ensaiada nas personagens dos Livros.

Como já devem ter dado conta, a minha paixão recai sobre o dom que o escritor tem sobre o papel, não tanto sobre este ou aquele livro, se bem que para um leitor apaixonado, tudo pode acontecer.

O Livro é paciente pelo que espera pelo leitor os dias, meses, anos que entendermos necessários, até que as nossas mãos e coração os acolham e se dê início à fabulosa viagem que, podendo ser interrompida quando necessário, não tem destino certo e guarda, seguramente, ensinamentos preciosos, ainda que não percetíveis no imediato.

Por tudo o que escrevi aconselho: Acolham um livro. Um qualquer. Com imagens. Com letras a perder de vista. Com cinquenta páginas. Com vários volumes… em formato tradicional… em suporte digital… em português… com vinhetas… em prosa… com rima…



OS LIVROS DA MINHA VIDA, por Joana Lopes (aluna do 11º1)


        Os livros são entidades que, desde criança, influenciaram o meu modo de encarar situações (problemas, dilemas…) deixando, sistematicamente, um vinco de euforia e inspiração no meu cérebro esponjoso que por vezes me impede de dormir em condições. Aquela semente de ideia fresca e impossível (ou não…) que é plantada no cerne da minha mente fá-la vaguear por um mundo imaterial, ao qual chamamos de subconsciente.
        Ler um livro é rir, pular, insultar e cantar uma batalhada de sons mentirosos (ou não…) em silêncio. É este constante tropel de sensações que prende qualquer espírito sonhador num labirinto perpétuo de maravilhas enquanto dormimos (ou pior…quando ainda estamos acordados…!); é uma deambulação tão frenética que quando me levanto de manhã já me sinto cansada.
        Já li alguns livros de diversos géneros: ficção, romances históricos, livros científicos, policiais, livros com escrita literária, outros com um não sei quê de jornalístico; muitos destes livros são do séc. XXI, outros do séc. XX, tais como: O Nome da Rosa, de Umberto Eco, Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Não obstante, tenho um especial interesse por livros um pouco menos recentes – livros do séc. XIX, como Os Maias, de Eça de Queirós, Quo Vadis, de Sienkiwicz, entre outros.
        Contudo, tenho fascínio ainda maior por dois livros que foram escritos há cerca de três mil anos atrás: são eles a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Nunca aprendi tanto com um livro como com estes dois clássicos.
         A Ilíada é um livro muito violento, muito pesado. Digo isto não só pelo facto de se passar em tempo de plena guerra, de descrever mortes horrendas com um detalhe exactíssimo, ou de relatar autênticas tragédias familiares, mas também (e principalmente) pela componente psicológica, pelos testes psicológicos a que algumas das personagens como Heitor, Aquiles, Ulisses, Agamémnon ou Andrómaca são sujeitos, constantemente. É muito interessante ver como cada um deles reage quando se encontra sob pressão: Heitor é sensato, heróico, é o guerreiro ideal, o líder ideal; Aquiles é muito impulsivo, mas honrado; Ulisses pensa, congemina sempre qualquer dolo, domina a arte das palavras, tem uma grande inteligência emocional; Agamémnon é um homem que quando está sob pressão simplesmente congela ou se deixa levar como vítima da sua própria imprudência; Andrómaca enfrenta a verdade, as consequências, sem medo, pensa, raciocina, aconselha. As personagens deparam-se, frequentemente, com dilemas, os quais muitas das vezes se me verificaram impossíveis de ultrapassar, mas que, sendo líderes ou personalidades de relevo, tinham de resolver; é muito interessante ver como lhes dão a volta, quem protegem, como pensam e o que no fim transmitem aos que os rodeiam, como encorajam o exército, como se sacrificam ou como sofrem quando não têm escolha senão sacrificar alguém. É doloroso.
        Muitas das situações descritas, circunstâncias em que as personagens são colocadas, dilemas, muitos dos problemas que as afectam são os mesmos com que também nos deparamos na actualidade. Nunca aprendi tanto com um livro. É um livro intemporal. À medida que o lia surgiam questões, como por exemplo: O que é que ele realmente quer dizer? Ele disse isto para o proteger ou foi coincidência? Porque é que ele fez isso?. – chama-se a isto “ler nas entrelinhas”; Ulisses funciona muito assim, exigindo muita atenção por parte do leitor a cada uma das palavras que profere. Para além disso, existe ainda a componente estratégica, o raciocínio, o poder da retórica, o “como dar a volta às questões”, a arte da persuasão, o dolo, o sacrifício, a autodisciplina, a frustração, o esgotamento psicológico, a tentação de desistir. Situações actuais. A esta componente intensa e sangrenta associa-se uma componente colorida: relatam-se acontecimentos históricos aos quais se juntam os deuses gregos, que trazem, em algumas situações, a comédia: a relação entre Zeus e Hera, o modo como a esposa engana o marido para ter aquilo que quer sem ele nunca dar conta (“os homens são seres muito simples…”); cresce no leitor uma amizade especial por Atena, a auxiliadora dos mortais.
        A Odisseia é diferente da Ilíada, assemelhando-se mais a esta última sua componente: é muito colorida e menos pesada. Conta a jornada de um homem incrivelmente inteligente, Ulisses, que ao longo da sua saga vai encontrando sempre mulheres bonitas e argutas, capazes de acompanhar os seus jogos mentais estratégicos. Assisti a relações muito interessantes entre ele e as diferentes mulheres, a grande maioria mulheres perigosas que o tentam reter ou matar. É muito curioso ver como eles se entendem entre si, como jogam bem com as palavras, como comunicam por entrelinhas e não abertamente. É também um jogo interessante para o leitor, como foi já mencionado, que terá de prestar muita atenção às palavras usadas e interrogar-se (O que é que ele lhe está mesmo a dizer?). A Odisseia é, então, um livro mais leve, com muitos episódios divertidos, ora de amores, ora de artimanhas, todavia Ulisses e os seus companheiros deparam-se, como não podia deixar de ser, com verdadeiras tragédias, verdadeiros dilemas, situações em que a autodisciplina é, provavelmente, o factor chave. - A Odisseia tem, de igual modo, uma componente negra e trágica. Como na Ilíada, é posto em evidência o sofrimento, o sacrifício, as decisões difíceis que Ulisses acarreta como líder; notam-se pontos muito subtis e curiosos no seu modo de pensar e de liderar e de comunicar. Por vezes, interrogava-me: Será que agiria daquele modo se estivesse no lugar de Ulisses? Será que foi a melhor decisão?
        À medida que lia, aprendia e aprendia e aprendia mais. Aprendi a lidar com situações delicadas, situações estas que se assemelham muito a circunstâncias do mundo actual. É um entrançado de mundos.
        São livros humanos, em que a relação entre os companheiros, com as mulheres e com os deuses influenciam todas as decisões e acções executadas, que se repercutem sempre em alguém. Vivemos todos ligados uns aos outros.
        São versos historiados, frutos de arte humana, que ainda hoje nos falam num mudo discurso que modula vidas.



Joana Lopes nº15 11º1

OSLIVROS DA MINHA VIDA, por Isabel Parreira, aluna do 8.º2

Sempre Do Teu Lado, de Maria Teresa Maia Gonzalez




A carta de um cão






O livro que me marcou foi este. Para alguns, é a medíocre vida de um cão. Para mim é a lealdade, a amizade, a emoção, a tristeza, a felicidade. Sempre gostei de ler, mas, depois deste livro, deixei de gostar, apaixonei-me pela leitura.


O livro conta a vida de um cão e do seu dono. O Félix, o cão, está naquele que pode ser o seu último dia de vida, esperando desesperadamente pelo dono, Guilherme, um adulto já casado. Enquanto espera, Félix conta a história da sua vida, desde o seu primeiro dia com Guilherme até ao momento em que ele saiu de casa, contando as suas primeiras experiências (ida ao veterinário, o passeio, a paixoneta de ambos, etc.)


A parte que mais me marcou foi o final, em que Guilherme toca à campainha e Félix diz: “Ouço a campainha, és tu, finalmente chegaste, poderei ver-te uma última vez”. É a maior prova de lealdade e amizade que alguma vez li.

OS LIVROS DA MINHA VIDA por Verónica Silva (Presidente do Conselho Pedagógico da EBSTB)

Como qualquer leitor, comecei a minha aventura pelos livros ainda em tenra idade. Recordo uma colecção de contos de fadas que os meus pais me ofereceram, elaborada especialmente para crianças da idade que eu tinha na altura (cerca dos seis anos de idade), com muitas ilustrações à medida que a história ia sendo contada. Sei que estes livros foram a minha maior motivação para aprender a ler no primeiro ano da então chamada escola primária.


No início da minha adolescência, tornaram-se imprescindíveis os livros da colecção “Uma Aventura”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Quase que posso garantir que li toda a colecção. Por esta altura, tinha um grupo de amigas e trocávamos os livros entre nós para que a despesa de aquisição fosse repartida pelos nossos pais.

À medida que a minha escolarização foi avançando, no ensino secundário, fui confrontada com a obrigatoriedade de ler algumas obras literárias com o propósito de as estudar. Confesso que estas aulas mudaram completamente a forma como passei a olhar para o que lia. O meu interesse deslocou-se do puro enredo para a intenção do autor. Ao mesmo tempo deparei-me com um desafio incrível: o ler nas entrelinhas, como diziam os meus mestres da altura, docentes por quem sempre nutrirei um enorme respeito e consideração por me terem feito despertar para o fabuloso mundo da literatura e por me terem feito ver que o que faz um livro não são as palavras que estão escritas, são a intenção que o leitor reconhece no autor.

Foi com este espírito que li, avidamente, “The Go Between” de L. P. Hartley. Apesar de ser uma obra de leitura obrigatória no 12º ano na disciplina de Inglês – nível superior, a forma como a narrativa foi cuidadosamente construída, a apresentação das situações e o forte simbolismo inerente a toda a construção da obra, fizeram com que, juntamente com a personagem principal, eu despertasse para a complexidade dos relacionamentos humanos a todos os níveis.

Considerando-me já em idade adulta, devo confessar que foram alguns os livros que não li até ao fim, não por falta de tempo mas por me ter tornado cada vez mais exigente quer no que diz respeito aos temas, quer no que diz respeito à construção do próprio texto em si. Li com muito interesse, e de seguida, os quatro volumes da saga “As Brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley que me transportaram para uma Idade Média cheia de ideais e princípios que vão gradualmente desaparecendo das sociedades modernas mas que as enformaram. O lendário Rei Artur, visto de uma perspectiva feminina, povoou o meu imaginário e permitiu-me conhecer um pouco melhor o modo de vida Celta e a passagem desta sociedade para uma sociedade cristã.

Na sua versão original li, depois, duas obras que, de modos diferentes, me marcaram. A primeira que gostaria de destacar trata-se de “Lady Oracle” de Margaret Atwood. Com este livro a minha viagem não foi a um tempo distante mas a uma cultura desconhecida. “Visitei” um pouco o modo de sentir e agir do povo canadiano através da personagem Joan Foster Li também “My Son’s Story”, da autoria da Prémio Nobel da Literatura Nadine Gordimer. Esta obra permitiu-me “acordar” para a realidade do Apartheid na África do Sul e as suas implicações sociais.

Recordo também a leitura de “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. O meu contacto com este livro não se deu pelo seu título mas pelo seu autor. Queria ler algo de Oscar Wilde. Tinha ouvido falar deste autor e algo despertou em mim o interesse e a curiosidade de ler as suas palavras. Rapidamente me embrenhei em toda a trama que envolvia a personagem principal e o seu retrato, sempre imaginando qual seria o desfecho de ambos.

Outra obra que gostaria de referir é “O Perfume – História de um Assassino” de Patrick Suskind. Este livro foi-me oferecido por um amigo por considerar que, provavelmente, eu até iria gostar de o ler. Confessei-lhe, em menos de uma semana depois, que tinha sido, até à data, provavelmente, o livro que mais tinha gostado de ler. Tratando-se de uma personagem estranha, o narrador contém em si a essência humana, a necessidade de superação e o firme propósito de alcançar o seu objectivo de vida. A resiliência com que conduz a sua vida é uma lição para todos aqueles que, ao primeiro obstáculo, desistem do seu firme propósito.

Mais recentemente, deliciei-me com as narrativas de Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento” e “O Jogo do Anjo”. Em ambas admirei o suspense criado à volta da identidade das personagens, numa Barcelona do início do século XX que instigou em mim a vontade de viajar, só para procurar os lugares referidos na obra.

Muitos mais foram os livros que li e que, de algum modo, significaram bastante por terem tido algum impacto e terem suscitado alguma reflexão. Os que apresentei foram aqueles que destaco por, volvidos alguns anos, não ter esquecido nem o seu título, nem o autor, nem as personagens, nem pequenos excertos que, de algum modo, significam ainda hoje algo para mim.

Espero ter contribuído com alguns títulos para orientação de futuras e boas leituras para todos!


Verónica Silva

O LIVRO DA MINHA VIDA por Mário T Cabral (professor de Filosofia)

Há muitos anos que tenho a resposta estudada para a ocasião em que me colocassem esta pergunta: «Qual é o livro da tua vida?». Nas entrevistas de fantasia que imaginamos para nós próprios, a minha resposta era uma graçola do género: «A Bíblia está excluída da lista, não é verdade?!».

Agora, que a pergunta ocorre, continuo a excluir a Bíblia, precisamente pelo facto de ela ser o fundamento do meu existir; aliás, é por uma razão análoga que não é referida nas bibliografias; pressupõe-se que é o chão da cultura ocidental e, portanto, está ao nível mais radical dos alicerces.

Entretanto, pensei na infindável lista do já lido; e não é menor a lista do que tenho ainda para ler, o que é uma alegria e uma esperança. Tenho, no computador, uma relação de títulos e de autores, para não me esquecer, pois não gosto de ver muitos livros comprados, à espera. Sinto um embaraço grande quando o monte à minha cabeceira ultrapassa mais de dez.

São muitos os livros que me marcaram para sempre. Ainda pensei neste e naquele mas acabei por optar pela sinceridade absoluta: não, não vou referir a Bíblia, mas não posso passar por cima deste facto: o livro da minha vida é o livro das minhas horas.

É muito íntimo o que vou contar, mas pareceu-me que mereciam a Verdade.

Um «Livro das Horas» é um livro de orações. Há belíssimos exemplares, que nos chega-ram da Idade Média, cobertos de iluminuras deslumbrantes, verdadeiras obras de arte vendi-das a alto preço. O meu é simples, como convém a um franciscano; são quatro volumes, que se usam conforme a época do ano. Trazem fitas, que marcam as diversas horas, os dias da sema-na, as semanas do mês, as quadras do ano, o santo do dia e as diversas partes da leitura. É um ritual complicado, a princípio. Para além das fitas, dá jeito ter um par de pagelas, que evitam contratempos. Tem uma bolsa preta de cabedal, com um fecho, o que é um fascínio um tanto mágico e infantil, para mim.

Anda sempre comigo.

Chama-se «Livro das Horas» porque é lido a várias horas do dia, marcando o ritmo da vida e do trabalho. Também é chamado «Breviário». O nome mais exacto é «Liturgia das Horas». O nosso (dos Terceiros Franciscanos) chama-se «Vida e Oração». As Ordens religiosas têm o dever de o rezar, o que é o nosso caso. Mas, acreditem, por favor: está longe de ser uma obrigação, dado o gosto que dá!

Achei útil colocar nesta resposta um desenho que ilustra estas paragens dos meus dias. Logo de manhã, antes de começar a trabalhar, é a hora de LAUDES, que quer dizer: “Alegria por estarmos vivos em mais este dia»; lembram-se daquela cantiga de amigo: «Laudemos, irmanas, etc.»? Costuma ser bem cedinho, pelas sete horas, mas pode ser um pouco depois. O que não tolero é começar a trabalhar sem esta meia-hora de encontro com o meu livro.

Depois segue-se a HORA INTERMÉDIA, que são três, com o nome das horas pelo relógio solar: TÉRCIA (nove horas), SEXTA (meio-dia) e NOA (três horas da tarde). Não é obrigatório parar em cada uma delas, porque uma pessoa que trabalha pode não conseguir arranjar tem-po, sendo que são mais rápidas (uns vinte minutos, por aí). No meu caso, estou em aulas, mui-tas vezes. Por isso, pode parar-se uma só vez: ou antes do meio-dia, ou ao meio-dia, ou o mais próximo do meio-dia, conforme a tarefa que se tem em mãos. Comigo, é o meu horário de professor que governa esta hora, mais do que as outras.

Ao final da tarde são as VÉSPERAS, mais uma meia-horita com o meu livro nas mãos. O que mais gosto é de fazê-lo no convento de São Gonçalo, com as minhas irmãs, antes da missa. Há um ritmo próprio de leitura, marcado com um asterisco, no final de alguns versículos: agora lêem os do lado direito/agora lêem os do lado esquerdo. Segundos de espera para todos parti-rem ao mesmo tempo. À Sexta, é sempre com os franciscanos, na ermida de Santo Cristo, mesmo colada ao museu de Angra. Não sou de viajar mas, sempre que o faço, é a hora mais adequada a rezar com os outros, porque já ganhámos o dia; há sempre um convento perto, descobre-se sempre uma igreja onde há um grupo de fiéis a rezar em grupo.

Deve procurar-se, a meio da manhã, sempre que possível, parar para OFÍCIO DE LEITU-RA (não é lindo, o nome?!). Já é fácil de compreender que nem sempre é possível. Pode ser a meio da tarde. Pode ser colado a uma das horas intermédias… às vezes é complicado, às vezes penso que sou uma espécie de atleta de alta competição, a arranjar pedaços de tempo para treinar. À noite, antes de me deitar, rezo COMPLETAS. O nome fala por si.

Como já se pode concluir, não poderia citar outro livro que não fosse este. Estaria a esconder algo do qual não tenho vergonha nenhuma, bem antes pelo contrário, me enche o dia de ritmo, como se a minha vida fosse uma trança de tempo-eternidade-tempo. Tem um quê de brincadeira de criança, admito, tem um quê quase de vício… É um êxtase. As correrias que dou, por vezes, para chegar a horas às minhas horas! E tenho de andar à procura dum lugar sossegado, muitas vezes. E quando chego lá - outra pessoa a fazer não sei o quê! Ou então entram, e apanham-me em flagrante! É mais divertido do que embaraçoso.

Como já sei muitas orações de cor, vou “ganhando tempo” quando ando a pé, ou quan-do vou na urbana, ou quando estou à espera da vez nos correios e no dentista. Reparem: não posso perder tempo. Deixei de me cansar de esperar, pois agradeço quando tenho de esperar… há sempre uma oração que ainda falta!

Eu sei que aldrabei o jogo desta pergunta. Não falei dum romance que se lê uma vez apenas. Não referi a obra do filósofo que mais me marcou. Não disse qual era o meu poeta preferido. Mas eu falei dum livro! Os outros livros passam-me pelas mãos – este está-me sempre nas mãos! Ele tira-me desta ilha pechinchinha e põe-me em contacto com a Eternidade e com os homens mais inteligentes dos outros séculos! É a minha porta de Ali Babá! De repente, estou fora deste mundo, onde sou mais eu. E, quando volto do século I d.C. ou do século V, a.C., quase sempre venho mais bondoso e feliz.

Se não vier, algo correu mal na minha viagem interestelar.
         Os livros da vida...
         ...do nosso Presidente


         Escolher o livro da minha vida é tão difícil quanto escolher o momento mais feliz da minha vida! Por essa razão, decidi seleccionar cronologicamente os livros, cuja leitura, desde a minha infância até à data, mais prazer me deram. Ainda antes de iniciar a enumeração dos livros da minha vida, entendo ser importante clarificar o que é para mim a leitura: ler um livro é um acto íntimo de profunda fruição; é um processo de descoberta, envolvimento e paixão. Quando temos a sorte de ter nas mãos um bom livro, somos levados pelas suas páginas num processo contínuo de deleite e arrebatamento; no seu final, sentimos uma satisfação semelhante à que temos quando passamos bons momentos com os nossos amigos ou ainda ao culminar de uma viagem de sonho. Por vezes, o livro é tão fascinante que no final sentimos alguma tristeza pelo seu término. Ler um livro é uma aventura; nunca sabemos o que nos espera, se vamos desistir no primeiro capítulo (às vezes acontece) ou o lemos deliciados e ininterruptamente do princípio ao fim (acontece a maioria das vezes). Ler é, acima de tudo, um acto de crescimento humano e cultural.

         Bom, os primeiros livros que me lembro de ler na minha pré-adolescência, afincadamente, tardes seguidas, foram as colecções dos “Cinco” e dos “Sete” da Enid Blyton. Recordo-me do cão “Tim” e dos inúmeros piqueniques que estes aventureiros faziam, os quais me abriam constantemente, por sugestão, o apetite. Lembro-me da minha paixão pelos livros do Astérix. Ainda hoje gosto de banda desenha, em especial do Calvin and Hobbes.

         Como tive a sorte de ter sempre muitos livros à minha volta em casa, passei na adolescência, por sugestão de um familiar, a leituras mais “maduras”. Li nessa altura livros especiais, como O Estrangeiro e A Peste, de Albert Camus, e A Metamorfose, de Kafka. Foi ainda nos meus dezasseis e dezoito anos que me entusiasmei com Ernest Hemingway e os seus inúmeros livros, entre eles, Fiesta, O Velho e o Mar e Por Quem os Sinos Dobram. Curiosamente, os autores portugueses ainda não me cativavam o suficiente, à excepção de Eça de Queirós. Recordo a leitura que fiz da sua obra, de uma forma semi-comprometida, considerada non grata pelo regime de Salazar, O Crime do Padre Amaro. Curiosamente, nessa altura, Os Maias passaram-me ao lado, talvez pela obrigação do seu estudo no liceu. É justo, porém, afirmar que a obra Os Maias é um romance cuja leitura me deixou extasiado. Acho que o li com a idade e a maturidade certas. De Eça, destaco ainda A Cidade e as Serras e A Capital. O seu profundo conhecimento da sociedade portuguesa e das suas personagens é profusamente satirizada nas suas obras O Conde de Abranhos e Correspondência de Fradique Mendes e ajudaram-me a consolidar o conhecimento do nosso Portugal político.

         Recordo, ainda, as noites de Verão em que vorazmente li Cem Anos de Solidão e Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez, obras assombrosas e arrebatadoras. Ainda nesse período do início da minha idade adulta, recordo as leituras de O Nome da RosaO Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, obras enigmáticas e misteriosas.

         Para concluir, devo dizer duas coisas: li imensos livros e na sua maioria conclui a sua leitura com prazer; não cabem aqui a referência a todos eles, cuja memória associo a um determinado período da minha vida. Essa é uma das vantagens da leitura: olharmos para a nossa linha do tempo e lembrarmo-nos dos bons momentos passados numa noite de Verão lendo até quase ao amanhecer uma obra fantástica, não podendo adormecer até chegar à última página!

         Não o queria fazer, mas vou ter que referenciar aqui alguns dos livros que trouxeram um pouco de sonho à minha vida: A Menina do Mar e A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen, o Le Petit Nicolas, do Sempé, Os Miseráveis de Victor Hugo, As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Twain, As Aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Aconselho a leitura destas obras a todos os jovens (a todos!). Nunca é tarde para as descobrir!
          Confesso as minhas duas grandes predilecções da Literatura Portuguesa: Miguel Torga, a quem sou fiel desde os tempos da minha adolescência, com a leitura dos Contos da Montanha, até aos dias de hoje, com a leitura do seu Diário, repleto de memórias de um Portugal passado, sem liberdade e dignidade. A coragem de Torga é um exemplo de vida; a sua escrita é cortante e seca como o frio da sua aldeia (S. Martinho da Anta), onde cheguei a deslocar-me para conhecer a casa onde o Torga escritor e homem íntegro nascera. Fernando Pessoa é para mim uma paixão; ao contrário de Miguel Torga, a sua escrita, na minha vida, não é do passado; quero com isto dizer que a sua obra é eterna e que de tempos a tempos tenho necessidade de reler a sua magistral poesia, cuja grandeza e profundidade me deixou para sempre abalado. Considero Fernando Pessoa o expoente máximo da Literatura Portuguesa e a sua obra um legado da língua portuguesa ao mundo.

         Neste momento, iniciei a leitura de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, uma obra cuja recente reedição me permitiu finalmente a sua aquisição e leitura.
         Ler é um ciclo mágico interminável. Ler, sonhar e viver. Sempre.

          
            Augusto Oliveira


         Presidente do Conselho Executivo da EBS Tomás de Borba