Atividade comemorativa do nascimento do patrono da nossa escola.


  A equipa da Biblioteca convidou os alunos do pré-escolar a conhecer Tomás de Borba, patrono da nossa escola. Os alunos ouviram uma história contada pelo educador Mário Rego, "A ovelhinha que veio para jantar " e cantaram músicas infantis acompanhados à guitarra pelos professores José Sousa e Pingo Grapiuna.
  Recebemos a visita dos alunos da Escola Básica e Secundária Tomás de Borba, Escola do Pico da Urze e Colégio de Santa Clara.







"A  ovelhinha que veio para jantar"



História do dia



Grande Pintora


- A minha sobrinha pinta papagaios?


- De papel? - perguntei eu.

- Não. Pinta papagaios de penas. Maravilhosamente - respondeu o meu amigo. - Se quiseres, hoje mesmo, passamos pelo atelier dela.

Fomos. O atelier da sobrinha do meu amigo parecia uma enorme gaiola. Esvoaçantes ou empoleirados em tudo o que lhes apetecia, araras, periquitos e, já se vê, papagaios davam-nos as boas-vindas, piando e palrando.

A pintora não estava, mas o meu amigo, que tinha a chave do atelier, movia-se naquele recorte de selva tropical com o à-vontade de um índio amazónico.

- E os quadros dela sobre esta passarada toda, onde é que estão? - perguntei.

O meu amigo não sabia ou fazia de conta que não sabia. O melhor era esperar pela pintora.

Entrementes, um papagaio com as cores da bandeira nacional simpatizou comigo, poisou-me no ombro e pôs-se-me a coçar ternamente a cabeça.

Despedi-me do meu amigo e combinei, para uma próxima, nova visita ao atelier da sobrinha. Mas aconteceu um percalço. O papagaio não me largava o ombro.

- Não o contraries e leva-o - disse o meu amigo. - Depois se verá?

Uma pessoa com um papagaio ao ombro chama sempre a atenção. Muito envergonhadamente, percorri o caminho até casa, perseguido pelo olhar de estranheza de quem se cruzava comigo.

E, como se não bastasse, o papagaio cantarolava, incansavelmente: ?Ó Rosa arredonda a saia". Não passava disto, o que seria sinal de uma certa saudade da dona, a pintora Rosa, imaginava eu. Quanto a ele, fica combinado que passamos a tratá-lo por Arco-Íris.

Assim que cheguei a casa, abri as janelas. Talvez lhe desse vontade de voar, ao encontro da sua querida Rosa?

O Arco-Íris voar, voava, mas saindo por uma janela e entrando por outra e poisando no meu ombro e soltando-se do meu ombro e saindo pela janela e entrando, sempre a cantarolar: ?Ó Rosa arredonda a saia".

Fui sentar-me junto à mesinha do telefone. Tão concentrado eu estava, à espera do prometido telefonema, que nem dei por que tinha começado a chover. E logo as janelas todas abertas?

Passados uns minutos, um bicharoco encharcado e cinzento, cor de rato, fincou-me as patas nos ombros. Dei um salto de susto.

O bicharoco abriu as asas e gritou:

- Ó Rosa arredonda a saia.

Não era possível. Outro papagaio, este cinzento, a cantar a mesma cantiga?

Já calculam o que se passou. O Arco-Íris, com a molha, perdera as cores radiosas da bandeira nacional.

Perdera-as porque, simplesmente, não lhe pertenciam. Pintado, pena a pena, pela sobrinha do meu amigo, o Arco-Íris revelava-se, afinal, um vulgar papagaio descorado.

Quando contei a história ao meu amigo, ele riu-se:

- Bem te avisei que a minha sobrinha era pintora de papagaios. Uma grande pintora!

Em conclusão: fiquei dono de um papagaio cinzento, que ninguém percebe por que bizarria ou tolice é que eu o trato por Arco-Íris.



Sugestão de leitura




E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?

Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

               José Saramago  em a   "Maior Flor do Mundo"


Escritor do mês



António Lobo Antunes



O mês de novembro é dedicado à obra do autor António Lobo Antunes nascido em Lisboa, em 1942.


Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria.


Os primeiros livros são marcadamente biográficos, e estão muito ligados ao contexto da guerra colonial;


Todo o seu trabalho literário, com o passar dos anos, tem sido utilizado para os mais diversos estudos académicos, nomeadamente, as suas crónicas inseridas em inúmeros manuais escolares de diferentes níveis de ensino.


Descobre tu também este autor polifacetado, de escrita sagaz e de apurado sentido crítico do Portugal contemporâneo.



História do dia



O Senhor Frutuoso Inventor


O senhor Frutuoso é um grande inventor. Entre máquinas e maquinetas da sua particular invenção tem em casa para cima de uma centena.


Juntem-lhe as máquinas e maquinetas que outros inventores, de diversos pontos do mundo, lhe enviam e imaginem como será a casa do senhor Frutuoso, com tantos maquinismos a trabalhar.

Uma barulheira que só ouvindo. Tlim, tcham, pung? Poc, poc, poc? Bié, bié, bié? Bong! Tuque, taque, tique, tuque? Tuque, taque, tique, tuque? A história podia ser toda assim, embora talvez fosse um pouco cansativa.

- Tudo preciosidades - costuma dizer-me o senhor Frutuoso, quando vou visitá-lo e ele me encaminha pelos salões e corredores da sua casa, cheios de vitrines e de prateleiras, carregadas de inventos.

- Repare-me neste prodígio que me mandaram pelo correio - diz-me o senhor Frutuoso, acabando de desembrulhar diante de mim uma enorme encomenda.

- É um bonito relógio de parede - digo eu.

O senhor Frutuoso indigna-se:

- Isto não é num relógio de parede. É um invento fantástico de um ilustre correspondente meu do Brasil, o doutor Janísio Bisnaga Filho, não sei se conhece?

Por sinal, não conheço, mas isso pouco importa.

- Explicou-me o meu amigo Janísio por carta que este relógio tem um mostrador e três ponteiros. Um para as horas, outro para os minutos e o terceiro sabe para quê?

- Naturalmente para os segundos.

- Nada disso. O terceiro é para anunciar o tempo - proclama, entusiasmado, o senhor Frutuoso.

Não se percebe onde está o espanto, porque, tanto quanto sei, todos os relógios anunciam o tempo.

- Não é esse tempo, mas o tempo que vai fazer - impacienta-se o sábio.

- Ah! Anuncia as horas com antecedência? - estranho eu.

- Refiro-me ao tempo atmosférico, o tempo meteorológico, entendeu? Este relógio, além de dar horas, informa-nos, com vinte e quatro horas de antecedência, sobre o tempo que vamos ter, no dia seguinte.

Finalmente, o senhor Frutuoso conseguia fazer-me entender. De facto, o relógio, tal como os barómetros, tinha à roda do mostrador várias indicações: chuva, aguaceiros, tempo variável, bom tempo, etc. Não tinha ?etc.", já se vê, mas percebe-se?

O senhor Frutuoso deu-lhe corda e o relógio começou a trabalhar num tic-tac certinho e cumpridor. Reparei que o terceiro ponteiro apontou para as palavras ?Tempo quente". Ainda bem.

No dia seguinte, fiado no invento do Doutor Jasmínio Bisnaga Filho, saí de casa à fresca. Pois apanhei uma chuvada e uma friagem que não queiram saber. ?Afinal o relógio também se engana", pensei e nunca mais quis saber do caso.

Só há dias, quando tive de telefonar ao senhor Frutuoso por outros assuntos, é que voltei a lembrar-me do caprichoso relógio de parede. Do lado de lá, o senhor Frutuoso atendeu-me, com a voz fanhosa das grandes constipações.

- Estou assim por causa do relógio - explicou. - Tenho-me guiado pelo conselhos dele e não calcula as chuvadas e resfriamentos que suportei, nestes últimos dias. Passa-se qualquer coisa no funcionamento do aparelho, que não entendo. Atchim!

O sábio a espirrar e uma ideia a trespassar-me a cabeça de lado a lado. Botei-a logo cá para fora:

- Se o relógio veio do Brasil, não estará ele regulado para outro clima diferente do nosso? - perguntei.

Fez-se silêncio do outro lado do fio. Depois, o senhor Frutuoso voltou à fala:

- Tem razão, tem toda a razão. O relógio diz que está bom tempo e tempo quente, mas é no Brasil, onde foi montado. Seja como for é um grande invento. Atchim!

E o senhor Frutuoso desligou apressadamente o telefone, para poder assoar-se mais à vontade.





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Poema da semana



(forma 2)



a mel e medo o meu passo avança devagar à

porta entreaberta da noite. mergulhado em

silêncio, alguém respira. e eu a mel e medo

encostada à porta possível da noite. porta

entreaberta ou porta de notícias e recados e

corpos por escrever.



porta de mel e medo e de passos devagar.

Judite Jorge in Setembro e outras estações


Poema da semana






Amanhecer




Pedras negras, brancas, água nas poças.

Garajaus estridentes, musicais!

Sargos, salemas no musgo do cais…

Fulgurantes raios em gotas moças.



Cheira a seiva no silvado das roças.

Morre o farol, guia do arrais.

Prematuros ruídos nos casais,

São Jorge de fumo, montes às bocas.



É Verão nos Terreiro às mãos cheias,

Traineiras no canal, pontos distantes,

Ceifando o pão salgado em suas veias.



Púrpura, roxo, o Pico em seus mirantes!

Cambiantes, cor, bufos de baleias.

Deleite! Felicidade em instantes!



Jorge Silveira

Terreiros – Ilha de São Jorge

Poema da semana





841




Agora, diz-me que não consegues ver o mundo daqui.



A cegueira dos vizinhos, os gritos na cozinha, todas

as pequenas luzes que se acendem perto

onde dois homens se reúnem em seu nome;

os placards, os outdoors, os néons,

todas as palavras que não souberam inventar;

a ponte, a estrada, o bilhete que diz

que ninguém dormirá hoje em casa

e o pedido de desculpas do farmacêutico à mulher

pelo fármaco para as dores

de ter de ser.



O planeta que lamentamos não chegar a ser nosso está

certamente

a lamentar-se de outra coisa qualquer.

Porque é que te interrogas? Porque é que ainda

te debruças sobre as lutas que não foste lutar? Há

duas coisas esquecidas na mesa-de-cabeceira

do teu quarto da infância:

a infância e

o dossier com o projecto para aquilo que sonhavas crescer.



Que importa, agora, a parede e o papel de parede

com que forraste a vontade de ser outra coisa?

Os arqueólogos conduzirão as suas investigações e

os astronautas dir-te-ão como pareces do espaço.





No papel de carta da carta que nunca escrevi

ninguém poderá ler o que quer que seja.

E mesmo assim haverá alguém

todos os dias

à espera dessa carta

à espera de uma carta concreta

dizendo coisas concretas

destinadas, especialmente,

a ela.



De que vale, então, escrever?

Que coisas mudariam se fosses tu junto a uma daquelas luzes

e não tu aqui, agora, a olhá-las?



Alguém se debruça à janela e logo

irrompe adentro e

fecha a vidraça

e ecoa um breve toque de metal pela noite.



Se espera uma carta,

ao menos envie o endereço.

O meu é fácil:

Heartbreak Hotel

ao teu lado

quarto, 841,

donde se avista o mundo possível.





Alexandre Borges, in Heartbreak Hotel, 2005



Vitorino Nemésio


Fala do Malmequer



Malmequer às vezes digo

Ao Romeu, por arrelia,

Que, de resto, eu sou amigo

Da verdade, crua e fria.



Ama-o, -sei; porque é comigo

Que a Julieta cicia

Confidências, num abrigo

De Silêncio e Fidalguia.



E, quando ela me procura,

Diz assim minha brancura:

Bem-me-quer (seja! a contento!)



E o estame ao ver o escabelo

Das pét’las, só, amarelo,

Não acredita, escarnento.



Vitorino Nemésio


Encontram-se disponíveis na Biblioteca os seguintes títulos do autor:







História do dia



Só Um Dia



O dia nasceu enfarruscado. A pesada manta de nuvens cobria o céu todo, sem deixar de fora sequer uma nesga de azul. Devia ser do frio.


As pessoas iam à sua vida, encafuadas nos seus pensamentos, sem a sombra a acompanhá-las. Faltava a luz do Sol.

- Que dia tão feio - disse alguém.

O dia, que poucas horas tinha de vida, amuou e fez beicinho. Choramingou. Choveu.

- Já cá falta a chuva? - disse mais alguém, chapinhando na lama. - Que dia horrível.

O dia sentiu-se e, ofendido, mais carrancudo se pôs. E protestou, em forma de trovoada.

Trovejou e choveu que tempos. Depois de muito ter barafustado, o dia cansou-se. Pararam chuva e trovões. Foi um alívio. Ficou o ar lavado e a terra encharcada e contente.

- Há dias piores - disse alguém.

Não era um elogio, mas para aquele dia, que ainda não ouvira uma palavra amável, soou a elogio. Com um suspiro reconfortado, deixou que uma brisa desvanecesse as nuvens. Começaram a desenhar-se as sombras atrás das pessoas.

- Ainda vamos ter um lindo dia? - disse alguém.

O dia abriu-se num sorriso que rasgou o céu de par em par, muito azul, muito luminoso.

Brilharam as ervas e as folhas ainda molhadas.

- Que dia maravilhoso - diziam as pessoas umas para as outras.

O dia também era da mesma opinião. Mas de si para si comentou: ?Como as pessoas são inconstantes. Ora dizem uma coisa ora dizem outra. Não as entendo".

Pois era. Para entender as pessoas um dia não bastava?


Se quiseres ouvir a história, clica aqui.