Escritor do mês



António Lobo Antunes



O mês de novembro é dedicado à obra do autor António Lobo Antunes nascido em Lisboa, em 1942.


Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria.


Os primeiros livros são marcadamente biográficos, e estão muito ligados ao contexto da guerra colonial;


Todo o seu trabalho literário, com o passar dos anos, tem sido utilizado para os mais diversos estudos académicos, nomeadamente, as suas crónicas inseridas em inúmeros manuais escolares de diferentes níveis de ensino.


Descobre tu também este autor polifacetado, de escrita sagaz e de apurado sentido crítico do Portugal contemporâneo.



História do dia



O Senhor Frutuoso Inventor


O senhor Frutuoso é um grande inventor. Entre máquinas e maquinetas da sua particular invenção tem em casa para cima de uma centena.


Juntem-lhe as máquinas e maquinetas que outros inventores, de diversos pontos do mundo, lhe enviam e imaginem como será a casa do senhor Frutuoso, com tantos maquinismos a trabalhar.

Uma barulheira que só ouvindo. Tlim, tcham, pung? Poc, poc, poc? Bié, bié, bié? Bong! Tuque, taque, tique, tuque? Tuque, taque, tique, tuque? A história podia ser toda assim, embora talvez fosse um pouco cansativa.

- Tudo preciosidades - costuma dizer-me o senhor Frutuoso, quando vou visitá-lo e ele me encaminha pelos salões e corredores da sua casa, cheios de vitrines e de prateleiras, carregadas de inventos.

- Repare-me neste prodígio que me mandaram pelo correio - diz-me o senhor Frutuoso, acabando de desembrulhar diante de mim uma enorme encomenda.

- É um bonito relógio de parede - digo eu.

O senhor Frutuoso indigna-se:

- Isto não é num relógio de parede. É um invento fantástico de um ilustre correspondente meu do Brasil, o doutor Janísio Bisnaga Filho, não sei se conhece?

Por sinal, não conheço, mas isso pouco importa.

- Explicou-me o meu amigo Janísio por carta que este relógio tem um mostrador e três ponteiros. Um para as horas, outro para os minutos e o terceiro sabe para quê?

- Naturalmente para os segundos.

- Nada disso. O terceiro é para anunciar o tempo - proclama, entusiasmado, o senhor Frutuoso.

Não se percebe onde está o espanto, porque, tanto quanto sei, todos os relógios anunciam o tempo.

- Não é esse tempo, mas o tempo que vai fazer - impacienta-se o sábio.

- Ah! Anuncia as horas com antecedência? - estranho eu.

- Refiro-me ao tempo atmosférico, o tempo meteorológico, entendeu? Este relógio, além de dar horas, informa-nos, com vinte e quatro horas de antecedência, sobre o tempo que vamos ter, no dia seguinte.

Finalmente, o senhor Frutuoso conseguia fazer-me entender. De facto, o relógio, tal como os barómetros, tinha à roda do mostrador várias indicações: chuva, aguaceiros, tempo variável, bom tempo, etc. Não tinha ?etc.", já se vê, mas percebe-se?

O senhor Frutuoso deu-lhe corda e o relógio começou a trabalhar num tic-tac certinho e cumpridor. Reparei que o terceiro ponteiro apontou para as palavras ?Tempo quente". Ainda bem.

No dia seguinte, fiado no invento do Doutor Jasmínio Bisnaga Filho, saí de casa à fresca. Pois apanhei uma chuvada e uma friagem que não queiram saber. ?Afinal o relógio também se engana", pensei e nunca mais quis saber do caso.

Só há dias, quando tive de telefonar ao senhor Frutuoso por outros assuntos, é que voltei a lembrar-me do caprichoso relógio de parede. Do lado de lá, o senhor Frutuoso atendeu-me, com a voz fanhosa das grandes constipações.

- Estou assim por causa do relógio - explicou. - Tenho-me guiado pelo conselhos dele e não calcula as chuvadas e resfriamentos que suportei, nestes últimos dias. Passa-se qualquer coisa no funcionamento do aparelho, que não entendo. Atchim!

O sábio a espirrar e uma ideia a trespassar-me a cabeça de lado a lado. Botei-a logo cá para fora:

- Se o relógio veio do Brasil, não estará ele regulado para outro clima diferente do nosso? - perguntei.

Fez-se silêncio do outro lado do fio. Depois, o senhor Frutuoso voltou à fala:

- Tem razão, tem toda a razão. O relógio diz que está bom tempo e tempo quente, mas é no Brasil, onde foi montado. Seja como for é um grande invento. Atchim!

E o senhor Frutuoso desligou apressadamente o telefone, para poder assoar-se mais à vontade.





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Poema da semana



(forma 2)



a mel e medo o meu passo avança devagar à

porta entreaberta da noite. mergulhado em

silêncio, alguém respira. e eu a mel e medo

encostada à porta possível da noite. porta

entreaberta ou porta de notícias e recados e

corpos por escrever.



porta de mel e medo e de passos devagar.

Judite Jorge in Setembro e outras estações


Poema da semana






Amanhecer




Pedras negras, brancas, água nas poças.

Garajaus estridentes, musicais!

Sargos, salemas no musgo do cais…

Fulgurantes raios em gotas moças.



Cheira a seiva no silvado das roças.

Morre o farol, guia do arrais.

Prematuros ruídos nos casais,

São Jorge de fumo, montes às bocas.



É Verão nos Terreiro às mãos cheias,

Traineiras no canal, pontos distantes,

Ceifando o pão salgado em suas veias.



Púrpura, roxo, o Pico em seus mirantes!

Cambiantes, cor, bufos de baleias.

Deleite! Felicidade em instantes!



Jorge Silveira

Terreiros – Ilha de São Jorge

Poema da semana





841




Agora, diz-me que não consegues ver o mundo daqui.



A cegueira dos vizinhos, os gritos na cozinha, todas

as pequenas luzes que se acendem perto

onde dois homens se reúnem em seu nome;

os placards, os outdoors, os néons,

todas as palavras que não souberam inventar;

a ponte, a estrada, o bilhete que diz

que ninguém dormirá hoje em casa

e o pedido de desculpas do farmacêutico à mulher

pelo fármaco para as dores

de ter de ser.



O planeta que lamentamos não chegar a ser nosso está

certamente

a lamentar-se de outra coisa qualquer.

Porque é que te interrogas? Porque é que ainda

te debruças sobre as lutas que não foste lutar? Há

duas coisas esquecidas na mesa-de-cabeceira

do teu quarto da infância:

a infância e

o dossier com o projecto para aquilo que sonhavas crescer.



Que importa, agora, a parede e o papel de parede

com que forraste a vontade de ser outra coisa?

Os arqueólogos conduzirão as suas investigações e

os astronautas dir-te-ão como pareces do espaço.





No papel de carta da carta que nunca escrevi

ninguém poderá ler o que quer que seja.

E mesmo assim haverá alguém

todos os dias

à espera dessa carta

à espera de uma carta concreta

dizendo coisas concretas

destinadas, especialmente,

a ela.



De que vale, então, escrever?

Que coisas mudariam se fosses tu junto a uma daquelas luzes

e não tu aqui, agora, a olhá-las?



Alguém se debruça à janela e logo

irrompe adentro e

fecha a vidraça

e ecoa um breve toque de metal pela noite.



Se espera uma carta,

ao menos envie o endereço.

O meu é fácil:

Heartbreak Hotel

ao teu lado

quarto, 841,

donde se avista o mundo possível.





Alexandre Borges, in Heartbreak Hotel, 2005



Vitorino Nemésio


Fala do Malmequer



Malmequer às vezes digo

Ao Romeu, por arrelia,

Que, de resto, eu sou amigo

Da verdade, crua e fria.



Ama-o, -sei; porque é comigo

Que a Julieta cicia

Confidências, num abrigo

De Silêncio e Fidalguia.



E, quando ela me procura,

Diz assim minha brancura:

Bem-me-quer (seja! a contento!)



E o estame ao ver o escabelo

Das pét’las, só, amarelo,

Não acredita, escarnento.



Vitorino Nemésio


Encontram-se disponíveis na Biblioteca os seguintes títulos do autor:







História do dia



Só Um Dia



O dia nasceu enfarruscado. A pesada manta de nuvens cobria o céu todo, sem deixar de fora sequer uma nesga de azul. Devia ser do frio.


As pessoas iam à sua vida, encafuadas nos seus pensamentos, sem a sombra a acompanhá-las. Faltava a luz do Sol.

- Que dia tão feio - disse alguém.

O dia, que poucas horas tinha de vida, amuou e fez beicinho. Choramingou. Choveu.

- Já cá falta a chuva? - disse mais alguém, chapinhando na lama. - Que dia horrível.

O dia sentiu-se e, ofendido, mais carrancudo se pôs. E protestou, em forma de trovoada.

Trovejou e choveu que tempos. Depois de muito ter barafustado, o dia cansou-se. Pararam chuva e trovões. Foi um alívio. Ficou o ar lavado e a terra encharcada e contente.

- Há dias piores - disse alguém.

Não era um elogio, mas para aquele dia, que ainda não ouvira uma palavra amável, soou a elogio. Com um suspiro reconfortado, deixou que uma brisa desvanecesse as nuvens. Começaram a desenhar-se as sombras atrás das pessoas.

- Ainda vamos ter um lindo dia? - disse alguém.

O dia abriu-se num sorriso que rasgou o céu de par em par, muito azul, muito luminoso.

Brilharam as ervas e as folhas ainda molhadas.

- Que dia maravilhoso - diziam as pessoas umas para as outras.

O dia também era da mesma opinião. Mas de si para si comentou: ?Como as pessoas são inconstantes. Ora dizem uma coisa ora dizem outra. Não as entendo".

Pois era. Para entender as pessoas um dia não bastava?


Se quiseres ouvir a história, clica aqui.



Novas edições já disponíveis na tua biblioteca:


Para os mais novos:

Kathy é uma menina de dez anos, alta e loirinha, que reside na California. Um dia sonhou conhecer os Açores. O Pai fez-lhe a vontade, Kathy tornou-se uma turista nas nove ilhas dos Açores!





Outras edições:














História do dia




Os Aliados Desavindos


O leopardo e o leão combinaram ir à caça juntos.


Que susto para o resto da bicharia! Se cada um deles por si só já fazia muito estrago, o que seria com os dois, em aliança?

- Aliança de pouca dura - garantiu o urso, que tinha fama de urso sábio.

Mas, até ver, os bichos mais indefesos tomaram as suas precauções. Esconderam-se nas suas tocas os que as tinham, abrigaram-se onde puderam os que não tinham casa sua. Todos muito quietinhos.

Mas um zebu imprudente perdeu-se do resto da manada e, sem saber como, viu-se cercado pelo leopardo e pelo leão. Patada de um, patada de outro, e o zebu ficou pronto para o almoço dos dois carniceiros.

- Esta primeira caça pertence-me - sentenciou o leão.

Claro que o leopardo não estava de acordo:

- E com que direito, se os dois caçámos o zebu? Tanto é seu como meu. Podemos comê-lo a meias.

- Alto lá! - disse o leão. - Nós combinámos caçar juntos. Não combinámos comer juntos.

- Ora essa! - protestou o leopardo. - Para mim é a mesma coisa, mas se faz diferença, porque é que há-de ser o leão o primeiro a comer?

- Porque eu estou habituado a uma primeira refeição de mais substância e só um zebu inteiro me matará a fome - rugiu o leão.

- E eu fico a vê-lo refastelar-se com o que nós dois caçámos? - opôs-se o leopardo. - Isso é que era bom!

- Bem bom - anuiu o leão, já de boca cheia.

O leopardo arrancou-lhe a febra da boca.

- Largue o que me pertence. Isto não fica assim.

Bulharam. Lutaram. Rebolaram no chão, qual de cima qual de baixo, ferozes como mais nenhuns.

Aproveitando a confusão da luta, um bando de chacais, a rirem-se da velhacaria, roubaram-lhes a presa.

Quando o leopardo e o leão deram pela ladroeira já era tarde.

Resultado: nunca mais quiseram caçar juntos.

- Tal como eu calculava - disse o urso sábio, que gostava sempre de tirar uma lição destas histórias de bichos. - Dois aliados de tamanha força, mais tarde ou mais cedo zangam-se. Nestas ocasiões, os mais fracos é que aproveitam.

A restante bicharada concordou, com um longo suspiro de alívio.


Por António Torrado

e Cristina Malaquias


poema sem vida







poema sem vida



de repente as escadas da tua sombra

e eu lavado dos teus olhos sumiste

ante o anoitecer

chovia fevereiro nas minhas mãos

e o infinito por embalar. e tu longe

sobre o azul salgado

a neve sobre o frio verde

na casa branca da Barrela o mistério da pedra. negra

a solidão do cão de guarda. amado ser de outra ilha

a madrugada. e caem os lábios por entre nuvens de fogo e semente

a sede que afaga outra filha

repatriado destino

partimos para cada um

sem o corpo do adeus até chegarmos

morrer é dar de cantigas ao amanhecer

no fundo do rádio sem pilhas

e assim te canto por todos os cantos até ser dia



Sidónio Bettencourt in Já não vem ninguém, 2010