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O recomeço


"Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar".


                                                        Miguel Torga





Olá a todos,

Cá estamos para embarcar numa nova aventura.
Mais um novo ano letivo recheado de novas experiências, amizades e, como não podia deixar de ser, novas leituras.
A biblioteca aguarda a vossa visita.

Até breve





São os votos da equipa da biblioteca





Feliz Natal!



Com a interrupção natalícia à porta, a equipa da Biblioteca não poderia deixar de desejar a toda a comunidade escolar um Santo e Feliz Natal!
Nesta azáfama toda que é o final de um período letivo, constata-se um ar de cansaço e simultaneamente um sorriso diferente na cara de todos e um burburinho de quem já faz planos nesta época natalícia. O “cheirinho” a Natal começa a invadir os nossos corações, de modo que deixemos o Sol brilhar, as estrelas cintilarem, os sinos tocarem e a Lua iluminar todo um caminho de Saúde, Paz, Alegria e Esperança!!!

Visto que é pela leitura que se emana magia, deixamos aos leitores os seguintes poemas de dois sublimes poetas…


NATAL DAS ILHAS


Natal das Ilhas. Aonde
O prato do trigo novo,
A camélia imaculada,
O gosto no pão do povo?
Olho, já não vejo nada.
Chamo, ninguém me responde.
Natal das Ilhas. Serão
Ilhas de gente sem telha,
Jesus nascido no chão
Sobre alguma colcha velha?
Burra de cigano às palhas,
Vaca com língua de pneu,
Presépio girando em calhas
Como o elétrico, tu e eu.
Natal das Ilhas. Já brilha
Nas ondas do mar de inverno
O menino bem lembrado,
Que trouxe da sua ilha
O gosto do peixe eterno
Em perdão do seu passado.

                                        Vitorino Nemésio


POEMA DE FERNANDO PESSOA


Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se vai mais uma quadra
Sinto mais Natal nos pés.
Não quero ser dos ingratos
Mas, com este obscuro céu,
Puseram-me nos sapatos
Só o que a chuva me deu  

                  Fernando Pessoa (25-12-1930)



 Esta equipa deseja, mais uma vez, um Santo Natal e um Ano Novo de 2014 cheio de sonhos e grandes emoções!



Poema da semana






RECEITA PARA MAIO
Este mês começa no dia das papas grossas, dia de seu nome:
Escalda-se de véspera a farinha peneirada, também o farelo
E nada de modernices para daqui tentar fazer fino pudim.
Os maios limpam as manhãs primaveris, tal como
Nas igrejas o seco elevado aroma das cinzas doiradas
Eis o mês de Pentecostes, as cabeças coroadas
As açucenas, aqui no Ultramar soberanas são chamadas.
De facto, o Espírito que desce neste mês é poliglota
Em todos os sentidos, haja em vista a Poesia.
(...)
Mário Cabral in O Meu Livro de Receitas, 2000




Poema da semana






PRANTO DOS EUROPEUS
À SAÍDA DO FESTIM
 
I
 
Pronta que foi a obra e ficaram os deuses
parados no azul e se abriram os zeros
nós saímos dos ovos e quisemos ser números
para que a cada um chamasse pelo seu nome
a luz que em seus andaimes mais altos nos provoca
com os loucos instrumentos que põe dentro do eterno
 
O anjo do ocidente à entrada do ferro
sorriu e atraiu-nos aos cantos mais escuros
de um lugar abolido pois sempre à criação
angustia o criado    Sombriamente puros
são os deuses insanos a fugir aos seus actos
que depressa abandonam como animais imundos
 
Mas tínhamos a força de uma breve existência
que de nós se escapava como um sonho de gás
e numa concordância sombria de formigas
uma a uma levámos as colunas de uma Europa
chamada pelos confins raivosos dos metais
e onde nos deslumbrou a estrela dos incêndios
demos futuro às cinzas às chamas capitais
velocidade aos venenos miasmas aos países
ao malefício os ímanes que desvairam as águas
e ao zodíaco uma estância de espinhos no aquário
 
As coisas que tocámos cobrimos de feridas
com a estranha violência de as amarmos demais
Terrível é o material grátis da inocência
porque tudo se dava virginalmente a nós
como a um excesso de mãos apenas aprendidas
e pródigos de sermos os maiorais da terra
inspirados por guerras e templos litigantes
como assombros proscritos as cidades cresciam
numa fuga para as nuvens em colunas tiritantes
que seguram o anátema que vai cair dos céus
 
 

Natália Correia in 
O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro


Poema da semana





Meu Portugal em Paris
 
Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris.
 
Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz.
Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
despejada nas ruas de Paris.
 
E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quis
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.
 
Manuel Alegre in 
O Canto e as Armas (1967)



Poema da semana




Parede a parede dentro de mim
Nunca foi tão curto este quarto…
Era a hora do sol morto de um avião a subir
a voar fora de mim.
Cara
parede a parede
nunca foi tão curto este quarto.
Bailava a música sozinha
(nunca a música me soubera a silêncio desesperado).
Parede a parede
nunca foi tão curto este quarto.
Já tempestades arrancaram flores
esta arranquei-a eu dentro de mim
(…o avião galgando espaços…)
Parede a parede
nunca foi tão curto este quarto.
Rui Duarte Rodrigues in Os Meninos Morrem dentro dos Homens
Angra do Heroísmo, 1970

Poema da semana





São Jorge, Pianos de Mar
Ao Eduardo Bettencourt Pinto
 
Do Corvo a Santa Maria…
Fico na ilha de S. Jorge: com laços de luz
nos ouvidos à espera que o moinho
do morro das Velas venha um dia
a moer a memória da distância
e o morro de Lemos seja da altura
da lua!
 
Nas ruínas da casa de Francisco de
Lacerda há-de haver um piano
com cauda de mar
que vá desde a Fragueira à Fajã
de S. João
e passe o seu silêncio através do canal
nas asas dos grilos!...
 
Fico em S. Jorge para ouvir
o mar dar a volta ao silêncio
e cobrir de azul toda a água da noite
e ver o funcho a crescer pelos caminhos!
 
Espero no cais das Velas o regresso
dos pescadores e canto a raiz
das conteiras ao sol da manhã.
Fico em S. Jorge
como um homem antigo cheio
de hábitos modernos. Como um
peixe de sangue quente, coração
e mãos ardentes, capaz
da colheita do milho
e da carícia humana dos poemas!
 
Fico em São Jorge:
- Viajar sem Viajar!
 
 
Carlos Faria (1929-2010) in S. Jorge – Ciclo de Esmeralda


Poema da semana




sinais dos tempos

ele é como a nuvem do nascente
que transporta a água
e o vento

não quis revelar a sua face aos
tecnocratas e banqueiros

nunca se sentou na cadeira do papa
nem foi rei ou presidente
de nenhuma nação

não quis habitar em palácios
e templos
edificados pelas mãos dos homens

nem tentou apreciar o incenso
e a fama
das lautas mesas

(era aguardado como um pato
ou animal doméstico)

julgaram que não usasse o chicote
da sua ira para açoitar
os vendilhões
das crenças e direitos humanos

andou por toda a parte e falou manso
e claro
como a água das nascentes

(mas nem os próprios amigos
o entenderam)

nunca vendeu
o corpo e a alma por um prato dourado
de lentilhas.


J. H. Borges Martins in nas barbas de deus
edições salamandra, 1999



Poema da semana





quando o nome se ajustar
ao pensamento
e a esperança for semente
flor e fruto num só dia
quando no estranho país móvel
o néctar
chover como uma sonata e
nenhumas mãos acenarem o adeus
para os navios

intacta e eterna
estarei sempre sentada
no penúltimo degrau
do cais daquela ilha

Madalena Férin, “Litania do eterno e do finito” (Prémio Irene Lisboa 1999) in Prelúdio para o dia perfeito, Edições Salamandra

Poema da semana





NOVAS DA ILHA
 
 
1.
Chegam-me cartas da ilha. Sustenho-as
cavalas frescas dependuradas de guelras abertas
inda agora acabadas de chegar
– do mar da serreta ou do mar das Cinco? –
num barco de S. Mateus que acabou de varar.
 
 
Como posso enganar-me? O carteiro tinha cara de nabiça
e inda pingam pelo bico
a ternura acabada de pescar.
 
 
Retenho nos olhos um instante as postas que darão
de sonho no vinho da notícia e no alho bem pisado da distância.
 
 
Abro-as enfim
mariscando no mar brumoso da saudade. À parte
aparto carinhosas as espinhas ortográficas.
E chupo-as como se acabadas de fritar.
 
 
2.
Vida sanabagana. De que me serve pôr-me a maquinar
se o tempo não mudou anda barbudo as vacas amarradas
os bezerros rolhados a berrar. E o céu sempre cinzento
e o mar. Esp’rança pr’adonde estás? Pra América ou Canadar
Em volta tudo é um paredão de mar.
 
 
O coração fica-me num bolo de massa sovada
mal cozida e embolada.
 
 
E sinto a alma abatumada.
 
 
 
Marcolino Candeias in Na Distância deste Tempo


Poema da semana





Emprego e Desemprego do Poeta
 
Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos
 

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"




Poema da semana




ESTÁTUA DA ALAMEDA

hoje, é triste a alameda onde em criança tive uma visão,

está deserta, com isto dizendo

fico sem saber quem mais entristeceu: a alameda ou eu?

a capela em ruínas; o muro de juncos,
também;

e descubro num plátano isolado

vestígios do nome que gravei no desespero de minha mãe;

está deserta a alameda onde em criança o sonho deixei,

que canteiro o preserva, que nome lhe dei?

é a mesma alameda deserta e triste,

eu é que mudei, roubado o ímpeto de marcar árvores,

o demorado hábito em ler as placas de cobre

com versos meio apagados de poetas mortos.

hoje, o céu não é o lápis-lazúli de Nobre,

nem violinos ao gosto de Verlaine;

é véu de viúva o céu,

e até o relógio de sol parece em luto,

chorando o pranto da estátua decepada

onde em menino vi meu rosto: velha a pele, acobreada.

porque regressei à alameda? Antes

os laranjais onde mora a luz sem o desassossego

de ver se algum dos plátanos morreu.

hoje, quem será mais triste: a alameda ou eu?


Ivo Machado, Praia do Corgo, 7 de Outubro de 2003


Poema da semana





XXV
 
Uma humidade corrosiva
cinzenta,
quase incolor e gasta
se espalha…
De súbito. Sem odor ou cor…
Pára o som!
E não se esgota neste fio
de silêncio e solidão
aquela humidade longa,
fria
    e corrosiva
de quase incolor podridão.
 
 
Avelina da Silveira in Mas o silêncio fica-me nos lábios, 
Secretaria Regional da Educação e Cultura, Coleção Gaivota n.º 34, 1983